segunda-feira, 26 de março de 2012

Cultivando as Virtudes Cristãs: Uma Análise de Romanos 12.9-21 - Terceira Parte.


Na segunda parte deste artigo analisamos os versículos treze a dezesseis que tratavam acerca da prática da hospitalidade cristã, de como devemos abençoar nossos inimigos, do compartilhar e participar tanto de momentos alegres quanto tristes na vida de nossos irmãos, da atitude cristã em conformar-se e apegar-se aos aspectos humildes da vida lançando mão da busca insaciável daquilo que é supérfluo e da unidade que deve existir no corpo de Cristo. Percebemos por meio da análise do texto de Paulo aos romanos o quão é importante para o cristão autêntico cultivar através da prática as virtudes, que através do Espirito Santo, Deus concedeu ao cristão para que o mesmo desfrutasse em completude a novidade de vida gerada pelo novo nascimento.

(A seguir, continuaremos a análise dos versos de Romanos capítulo doze. Para tanto trataremos nesta parte os versos dezessete a vinte e um).


No versículo dezessete Paulo diz: “A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas dignas, perante todos os homens. Na primeira parte do versículo o apóstolo alerta a cristandade para não responder ao mal fazendo a seu próximo alguma maldade, aqui é tratado acerca dos sentimentos de vingança aos quais os seres humanos estão sujeitos a sentir e praticar devido a algumas injustiças sofridas da parte de alguém. Em outra epístola Paulo relata: “E nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos; somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e o suportamos; somos difamados, e exortamos; até o presente somos considerados como o refugo do mundo, e como a escória de tudo (1ª Coríntios 4.12-13). Esta advertência deve ser aplicada aos nossos relacionamentos interpessoais, inclusive a crimes que estejam sujeitos a ações penais impetrados pela Justiça, na qualidade de indivíduos não cabe a nós fazer justiça com as próprias mãos, não podemos agir como Deus ou como a Justiça. Portanto, a vingança é uma atitude repugnante e inaceitável para qualquer pessoa que se denomine cristã, devemos sim, procurar fazer o que é bom no lugar do que é mal. A segunda parte do versículo nos exorta a procurar fazer o bem perante todos os homens, tal exortação pretende conduzir a cristandade a manter uma conduta irrepreensível que venha a ser aprovada pelos homens, ou seja, pela sociedade. Devemos viver uma vida irrepreensível não apenas diante daqueles que fazem parte da Igreja, mas, principalmente diante daqueles que permanecem nas trevas. No que condiz a atitude de manter uma conduta irrepreensível diante dos homens Calvino relata: “Devemos lutar para que através de nossas ações de honestidade toda humanidade seja edificada.... para que a humanidade perceba, através de alguma palavra, o bom e o suave cheiro de nossa vida cristã, através da qual sejam conduzidos até o amor de Deus”.


O verso dezoito relata o seguinte: Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens. Existe certa reserva do apóstolo ao utilizar o termo se for possível, este termo indica que nem sempre será possível a cristandade permanecer em paz com a humanidade. Embora seja nosso papel como povo escolhido de Deus buscar a paz, como Jesus disse em Mateus cinco verso nove Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus", não podemos em nenhuma hipótese aceitar o sacrifício da santidade e da verdade em detrimento da manutenção da paz. Entretanto, Paulo ao relatar que todo cristão deve buscar a paz até onde estiver em sua alçada, nos leva a percepção de que devemos utilizar todos os meios possíveis, menos o sacrifício da santidade e verdade, para mantermos a paz com nossos semelhantes. Como cristãos temos por missão cultivar a virtude da pacificação em nossos relacionamentos com a humanidade. Lembremo-nos que não podemos jamais sacrificar a verdade em detrimento do erro ou pecado, cumpre-nos sim, amar nossos semelhantes como a nos mesmos.

Em romanos doze verso dezenove, a Bíblia nos exorta à: Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira (de Deus), porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor. É nítida a intenção do apóstolo ao exortar a Igreja sobre a importância de não fazer justiça com as próprias mãos, não podemos executar justiça diante das injustiças ou perseguições impetradas por nossos desafetos. No que concerne a darmos lugar a ira existe alguma divisão entre teólogos e eruditos no que diz respeito ao agente da ira, porém a mais comumente aceita é a interpretação de que esta ira pertence unicamente a Deus, já que, no vocabulário paulino, o mesmo, quase sempre se dirige a palavra ira como algo pertencente a Deus. Temos por dever sempre retribuir o mal por bem, mas, lembremos que um dia Deus que é justo Juiz vingará seu povo, pois a vingança lhe pertence.

O verso vinte retrata o seguinte: Antes, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Paulo extrai tal citação do livro dos Provérbios capítulo vinte e cinto versículos vinte e um e vinte e dois com o intuito de instruir a cristandade sobre seu proceder para com seus inimigos. Existe muita discordância no que concerne a verídica interpretação do significado de amontoar brasas vivas sobre a cabeça, porém a que aceitamos como a mais coerente ao texto bíblico e a que entende que ao demonstramos bondade para com aqueles que procuram fazer-nos mal, geramos, nos mesmos, um intenso sentimento de vergonha sobre eles, segundo João Calvino: “O nosso adversário será abrandado por nossa gentileza, ou, se ele é tão cruel que nada pode mitigá-lo, será afligido e atormentado pelo testemunho de sua consciência, que se sentirá vencida pela nossa bondade”.

Paulo no versículo 21 discorre: Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Não podemos nos deixar ser vencidos pelo mal que procura se amontoar sobre nossas vidas. Ao contrário, através da prática do bem devemos ser canais que quebrantem o coração daqueles que intentam fazer-nos algum mal. Não nos olvidemos que esta é nossa vocação!

No decorrer desta exposição percebemos o quanto é essencial cultivarmos estas virtudes as quais apenas cristãos autênticos podem desfrutar. É de extrema importância para nossa missão resplandecermos a luz de Cristo em nossas vidas, para tanto devemos praticar estas virtudes em nossa vida pessoal e em nosso convívio em comunidade, pois somente desta maneira poderemos ser chamados filhos de Deus. Aprendamos com o apóstolo Paulo no fato de que devemos lançar mão do nosso velho eu, dando lugar à nova criatura que foi regenerada pela ação exclusiva do Espírito Santo.

Soli Deo Gloria!
Pr. Narciso Montoto.

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